Concluo hoje a apresentação do conto de Jorge Magalhães que foi ilustrado por mim, elaborado para comemorar o primeiro aniversário da morte de Sergio Bonneli a.k.a. Guido Nolitta, cuja primeira publicação teve lugar no Tex Willer Blog.
III
O LUAR DO PAJÉ
Um frémito atravessou a clareira, como se criaturas invisíveis e desconhecidas, ocultas entre as árvores, se agitassem na excitação da vitória a que acabavam de assistir. Guido Nolitta saiu do seu torpor e observou o homem ainda debruçado sobre o corpo do jaguar, que jazia inerte como um fruto maduro caído das árvores.
Era uma curiosa personagem que nunca lhe passaria pela cabeça encontrar na selva amazónica, embora tivesse feições tisnadas pelo sol dos trópicos, que reflectiam, à meia luz das fogueiras, um ânimo valente e decidido. Envergava um traje citadino, em que eram visíveis os danos da breve luta, e um blusão escuro com uma curiosa insígnia (uma espécie de trevo de quatro folhas) na manga direita. Tinha cabelos curtos, grisalhos nas têmporas (apesar de parecer ainda jovem), olhos vivos e penetrantes, com um brilho azul de safiras, inspirando simpatia, à primeira vista, como os heróis que Guido conhecera nos livros e nos fumetti escritos pelo seu pai.
Envolto numa réstia de luar, parecia quase uma figura fantástica, dessas que amamos na infância e nos acompanham por toda a vida, estimulando as nossas quimeras e os nossos sonhos, a parte mais poética e heróica que albergamos num recanto especial da nossa alma.
Esta impressão foi tão forte que Nolitta não pôde reprimir a exclamação, embora incrédula, que lhe assomou instintivamente aos lábios.
– Tarzan! Lorde… Lorde Greystoke?!…
Uma voz metálica e fria, estranhamente calma, desfez-lhe as dúvidas:
– Não! Chamo-me Jerry Drake… mas pode tratar-me por Mister No! Vivo aqui, na Amazónia, e também sou amigo dos Caiapós. Quanto ao resto, se quer saber, não tenho títulos nobiliárquicos e só mato animais selvagens em último recurso!
Guido sentia-se cada vez mais perplexo. Quem seria, na realidade, aquele homem que preferia usar um nome enigmático… apesar de se ter apresentado como um cidadão comum, talvez americano como Kerry Drake? Um homem com uma força tão espantosa como a de Tarzan… embora não andasse nu como o pretenso rei da selva!
– Eu… eu estou-lhe imensamente grato! – balbuciou, em voz trémula, estendendo a mão ao seu salvador. – Sou italiano e chamo-me Guido Nolitta… viajante e escritor por vocação. Também me dedico às histórias para rapazes. É uma herança de família!
O outro correspondeu ao cumprimento, com um sorriso levemente irónico no rosto esbatido pelo frouxo clarão das fogueiras.
– Não precisa de me agradecer. Calhou eu estar aqui perto, quando a onça se preparava para atacá-lo. Mas recomendo-lhe que tenha mais cuidado! Nestas regiões, a noite e a solidão são más conselheiras… Pior ainda se os nossos sentidos tiverem adormecido depois de uma boa libação de cachaça. E a do cacique… melhor dizendo… pajé Ubirajara… é demasiado forte!
Fez uma pausa e acrescentou, com um trejeito ainda mais irónico:
– Essa música que o ouvi trautear há pouco é uma das minhas favoritas… mas deve ter sido ela que atraiu a onça!
Guido Nolitta continuava a sentir um vago aturdimento. Noite, solidão, cacique, pajé… qual seria o significado profundo destas palavras na boca do desconhecido? E que andaria ele a fazer, de noite, junto da aldeia dos Caiapós? Sem armas, totalmente indefeso… Teria olhos de felino para poder devassar a escuridão da selva? E em que fibras do seu ser a coragem e a ironia se entrosariam com a prudência e o bom-senso? Ou seria um louco temerário e impulsivo que não temia o perigo, apesar dos conselhos que dava aos outros? Talvez não passasse de um rebelde, um marginal de espírito solitário que procurava afastar-se do mundo civilizado. Eram questões que intrigavam Guido Nolitta, mas para as quais não esperava encontrar respostas.
– Então escreve histórias? – perguntou o homem que se intitulava Mister No. – Tenho um bom mote para um livro: na Amazónia diz-se que a terra não tem dono, mulher não tem honra, homem não tem palavra e árvore não tem raiz! É por isso que eu prefiro a companhia dos índios!
– Eu também gosto deles. Sempre que posso venho à Amazónia para os ver. O Brasil tornou-se a minha segunda pátria! – exclamou Guido Nolitta, que sentia a boca seca e os membros entorpecidos, sem saber se era ainda efeito da cachaça ou da extraordinária cena que se desenrolara diante dos seus olhos.
Mister No empunhava agora, na mão esquerda, uma catana com a lâmina suja de sangue. Teria sido com essa arma que matara a onça e não com as mãos nuas, à laia de um herói de romance? Guido começava a duvidar do que presenciara momentos antes, como se sofresse de alucinações. Olhou para o cadáver do felino, mas a luz das fogueiras era muito ténue e não viu manchas de sangue.
Um súbito negrume abateu-se sobre a clareira, quando a lua desapareceu entre um feixe de nuvens, tornando a cena ainda mais insólita. O luar e a sombra, a misteriosa dualidade dospajés (dos xamãs), pensou Nolitta, lembrando-se do nome que Mister No dera ao cacique, que a essa hora dormia numa cabana, talvez assaltado pelos mesmos sonhos que rodopiavam na sua mente, como uma girândola fantástica.
O outro continuava a apertar-lhe a mão, sacudindo-a vigorosamente como se quisesse arrancá-lo ao seu torpor. Foi então, ao contacto daqueles dedos fortes, tão reais no seu sonho como as garras do jaguar, debatendo-se no estertor da morte, que Guido Nolitta, o viajante italiano apaixonado pela Amazónia, regressou ao seu estado consciente e às margens do rio Xingu, a esse mundo primitivo que despertava lentamente nos braços da aurora.
Olhou em volta e, como já esperava, não viu ninguém. Mister No e o corpo rígido da onça tinham desaparecido. Só as fogueiras ainda ali estavam, escuras e frias, sem a crepitação e o calor das brasas. Mais longe, nas cabanas dos índios, continuava a reinar o silêncio. A lua alvejava no céu, sobre a Natureza adormecida e calma.
Dois dias depois, o hidroavião de asas amarelas levantou voo, descrevendo uma larga curva sobre a aldeia – onde os Caiapós, sobretudo os filhos e as filhas de Ubirajara, o saudavam com gritos estridentes –, antes de sobrevoar, aos ziguezagues, a fita prateada do afluente do poderoso Amazonas.
O piloto olhava em frente, através dos vidros da carlinga, onde o clarão ofuscante do sol se reflectia como num espelho, iluminando-lhe o sorriso estampado no rosto, sob os óculos e o gorro de aviador. Voar era um dos seus maiores prazeres!
Mal sabia Guido Nolitta que voltaria a encontrar-se muitas vezes com Mister No… a personagem dos seus sonhos descoberta em plena selva, graças à cachaça (ou à magia?) de um xamã, numa noite da Amazónia!
Nota: A frase “Na Amazónia, a terra não tem dono, mulher não tem honra, homem não tem palavra e árvore não tem raiz”, foi extraída de um artigo sobre o jornalista e defensor do ambiente Felipe Milanez.