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quarta-feira, 7 de junho de 2023

RECORDAÇÕES DE BEJA

 

A preparar mais um autógrafo em Beja (Foto Cristina Costa Amaral)

   Como disse anteriormente, durante o fim-de-semana estive na 18ª Edição do Festival Internacional de Beja, onde fiz, juntamente com outros autores uma pequena apresentação de A Oeste, o meu mais recente trabalho. Para além disso, houve também direito a algumas sessões de autógrafos e ainda algo que é de salutar nestas mostras, o acompanhamento de trabalhos de vários colegas meus e dos convidados estrangeiros e ainda o inevitável convívio que nos deixa sempre incríveis memórias destes acontecimentos que acabam por se tornar únicos. Deixo então algumas fotos que ilustram um pouco do que foram estes dias invulgares para mim...

    Entretanto deixo uma vez mais os meus horários para os próximos dias em que estarei presente na Feira do Livro:

Dia 10 de Junho, das 18.00 às 19.00 horas

Dia 11 de Junho, das 17.00 às 18.00 Horas e

Dia 13 de Junho, das 17.00 às 18.00 Horas

A apresentação dos livros da Escorpião Azul. Paulo J. Mendes, eu, o nosso editor Jorge Deodato e Carlos Páscoa (Foto: Paulo J. Mendes)
Paulo J. Mendes, eu, Jorge Deodato e Rita Alfaiate numa apresentação onde foram abordadas as obras de cada um de nós (Foto: Escorpião Azul)

A mesa dos autógrafos, onde, para além de mim, estavam presentes Paulo J. Mendes, Rita Alfaiate, Álvaro e Carlos Sêco (Foto: Paulo J. Mendes) 

A Oeste, num dos escaparates do Festival


terça-feira, 3 de janeiro de 2023

EUGÉNIO SILVA - AS MEMÓRIAS QUE PREVALECEM...

 


Eugénio Silva: mais um grande que deixa de estar entre nós...

    2022 foi um ano terrível. Ao longo de meses fui perdendo alguns dos meus grandes amigos na área da banda desenhada, todos eles autores que muito admirava desde a minha juventude. E, infelizmente o ano não podia acabar sem ver partir mais um do qual guardo também muito gratas memórias: o Eugénio Silva.

    É verdade que com o Eugénio não tive uma convivência tão intensa como aconteceu com o Jorge Magalhães, o José Pires ou o José Ruy, até porque morávamos longe um do outro. Todavia guardo muito gratas memórias dos vários encontros que tivemos e das conversas que fomos partilhando ao longo dos anos. Para além disso, o Eugénio era também um daqueles autores que acompanharam o meu crescimento com obras verdadeiramente fabulosas, como por exemplo Inês de Castro, que ainda hoje guardo na minha coleção. Para além disso, a nossa relação teve ainda uma grande curiosidade. É que desde a minha juventude que eu ouvia dizer que o Eugénio estava a preparar um álbum dedicado ao Zé do Telhado. No entanto, os anos foram passando e a dita história não havia meio de sair. Por isso, cada vez que nos encontrávamos, eu chateava-o com o facto do livro ser de parto muito difícil e de não haver maneira de sair do seu estúdio. Diga-se mesmo que quem lhe abordava sempre essa questão era eu e o Luiz Beira. E, talvez por isso, quando o livro finalmente viu a luz do dia em 2020, pude constatar com muita satisfação que o Eugénio nos havia de certa forma homenageado, colocando-nos numa vinheta como os morgados de Canavesinhos.

    Mas este foi apenas o corolário de vários episódios que se foram passando ao longo de vários anos. Isto, porque uns Natais antes do livro sair, já o Eugénio me tinha presenteado com a reprodução de uma prancha dele, em que re-escreveu os diálogos, dedicando-os à minha pessoa. Esse é um presente que ainda hoje guardo junto à minha coleção com muito carinho.

    Contudo, essas são apenas algumas das memórias que ficaram. Muitas outras dos vários encontros que tivemos ao longo dos anos acompanhar-me-ão até ao resto dos meus dias. Lembro-me por exemplo de uma vez ele me ter convidado para assistir a uma exposição sua, onde o fiquei a admirar também como sendo um notável aguarelista com um estilo verdadeiramente luminoso. É por isso que, com muita tristeza, o vejo também partir. Afável por natureza o Eugénio era alguém com quem se podia sempre conversar agradavelmente sobre vários assuntos e de quem, tenho a certeza, irei também sentir muita falta nos próximos anos.

    Fica no entanto a convicção de que todos estes meus amigos estarão agora juntos no que se pode designar um pequeno paraíso dedicado aos grandes artistas que em vida foram... Por isso, deixo aqui um até um dia Eugénio, sabendo que até lá existem muito gratas memórias que irão prevalecer...

Fotos: Cristina Costa Amaral

José Ruy, Baptista Mendes, José Pires, José Garcês, Eugénio Silva e eu num Amadora BD, numa exposição de homenagem aos autores que colaboraram em álbuns da Âncora. Neste momento apenas eu e o Baptista Mendes andamos por cá...

A homenagem que o Eugénio me fez a mim e ao Luiz Beira, na vinheta da direita do álbum dedicado a Zé do Telhado

A prancha de Zé do Telhado que o Eugénio re-escreveu de propósito para mim e que meu ofereceu num já longínquo Natal


    


terça-feira, 29 de novembro de 2022

JOSÉ RUY - A PARTIDA DO MEU ÚLTIMO GRANDE HERÓI...

 


   Por estes dias, com a partida de José Ruy para outras paragens, não consigo deixar de sentir um grande vazio no meu coração, pois com o seu desaparecimento, tenho a estranha sensação de que perdi mais um bom amigo que me acompanhou de forma bastante presente ao longo dos últimos quase trinta anos. É verdade que o José Ruy partiu com uma idade já bastante avançada (92 anos), mas também não deixa de ser uma referência o facto de que o seu ritmo de trabalho era de tal ordem, que já nos tínhamos conseguido adaptar à ideia de que ele duraria pelo menos cem anos.

    Eu conheci o José Ruy há 28 anos, por alturas do lançamento de A Voz dos Deuses, o meu primeiro livro. Estávamos então em pleno Festival da Amadora . E ele, não só acompanha todo o processo de lançamento, como depois vem ter comigo e, de forma afável, salienta a minha coragem por ter embarcado neste projeto de grande dimensão. Sublinhe-se que, nesta altura, José Ruy era já um autor já plenamente consagrado, com décadas de trabalho atrás de si e já muitos álbuns publicados. Por isso, guardarei sempre na minha memória esse momento em que nos conhecemos e trocámos as nossas primeiras impressões, sendo eu apenas alguém que acabava de chegar à BD.

    A partir daí, este grande autor tornou-se em alguém que me deu um apoio constante ao longo da vida. Lembrarei para sempre a sua delicadeza e o seu espírito construtivo que me acompanhou, ao longo de anos, com sugestões, ideias ou apenas simples conversas. E, daqui para a frente, terei não só saudades dos muitos momentos que partilhámos juntos, mas também dos nossos contactos através de email. Posso, por isso, dizer que o José Ruy deixou uma marca indelével ao longo dos anos. Nunca me esquecerei de que, sendo ele um já muito prolífero autor, com uma vasta obra atrás de si e uma notável capacidade de trabalho, esteve sempre presente, nem que fosse com uma simples palavra de encorajamento e incentivo. É disso que irei sentir muita falta, porque mais do que um autor, ele foi para mim sempre um amigo com A grande. E isso ainda assume mais importância, quando estamos a falar de alguém que deu um enorme contributo à banda desenhada, com provavelmente mais de cinquenta álbuns publicados, obras que contribuíram enormemente para dar outra visão a pequenas histórias da História, apesar de ter trabalhado também noutros géneros...

    A esse nível posso também dizer que o primeiro contacto que tive com parte da vastíssima obra que nos deixou foi quando eu era ainda um jovem que sonhava poder um dia ser um autor de BD. Nunca mais me esquecerei das Aventuras do Clique e do Flash nas páginas do Tintin, onde com um enorme sentido de humor, entre outras coisas, parodiava de forma inteligente algumas situações e lugares comuns na própria redação da revista. Depois e, ao longo dos anos, fui então travando conhecimento com o que posso designar de uma carreira ímpar, sabendo que a própria História o lembrará para sempre com muito amor e carinho...

    Resta-me dizer que apenas suspeitei que alguma coisa não andava realmente bem, quando no último Amadora BD não o vi. É que, ao longo dos anos o José Ruy foi sempre uma presença constante neste evento, onde com a sua amabilidade e afabilidade, pontuava sempre por uma presença única. Daí que tenha estranhado pela primeira vez não o ver presencialmente. No entanto, nessa altura, ainda não sabia da verdadeira dimensão da doença que o consumiu de forma galopante.

    E, com a sua partida, sinto então uma profunda tristeza, que infelizmente já tinha sentido com o desaparecimento do Jorge Magalhães, do Geraldes Lino ou do José Pires. Apenas me consola a ideia de que, por estas alturas, estarão todos numa espécie de paraíso, para onde irão certamente todos os amantes de BD. E sei também que terá sido muito bem acolhido por todos estes e outros seus amigos, para juntos iniciarem provavelmente outro tipo de aventuras...

    Para finalizar, fica então aqui um grande ATÉ SEMPRE deste que, ao longo dos anos, se tornou num admirador confesso...

Eu e o José Ruy, em pleno Amadora BD nas sessões de autógrafos...

...a dar vida a novos desenhos

Da esquerda para a direita: José Pires, José Ruy, a sua esposa Maria Fernanda, Tito e Luís Beira, estando eu em baixo

Uma das muitas pranchas que José Ruy nos deixou para a posteridade...



terça-feira, 19 de julho de 2022

JOSÉ PRES - RECORDANDO UM BOM AMIGO...

 

José Pires, mais um bom amigo que se foi...

   Interrompo esta semana a publicação das páginas de Amira, porque sinto necessidade de falar um pouco deste meu bom amigo que, no final da semana passada, partiu rumo às pradarias celestes. José Pires, entrou na minha vida através do seu trabalho. Lembro-me que, ainda muito jovem, ficava fascinado a contemplar horas a fio as pranchas de Homens do Oeste, bem como algumas ilustrações que elaborou para livros da coleção western da Europa-América. Esse foi o primeiro contacto que tive com ele, nunca suspeitando que anos mais tarde o iria conhecer pessoalmente, tendo-se tornado, a partir dessa altura, um bom amigo.

    Foi então no Amadora BD, no lançamento de A Voz dos Deuses, no já longínquo ano de 1994 que tive o privilégio de o conhecer. Imagine-se então qual não é o meu espanto quando vejo que na fila dos autógrafos está precisamente aquele desenhador, cujo trabalho já admirava há anos. Foi aí que comunicámos pela primeira vez e trocámos algumas ideias e, a partir desse dia, fomos falando regularmente sobre os mais variados assuntos e, claro, a paixão pelo western que ambos partilhávamos, vinha muitas vezes à baila. Mas, para além disso, foi também graças ao José Pires que passei a trabalhar em arte digital com um Mackintosh e foi ele que me deu algumas dicas sobre métodos de trabalho que me foram sendo muito valiosas ao longo dos anos.

    Foram então quase trinta anos em que desenvolvemos uma relação de uma profunda amizade, em que inclusivamente partilhámos algumas aventuras juntos, como, por exemplo, uma ida ao Festival Internacional de Angoulême, em 2009. Apesar de nos últimos anos ter a noção de que o seu estado de saúde foi ficando ligeiramente mais frágil e que já não tinha a velocidade de trabalho que o caracterizava, continuou a ser alguém que me foi relativamente próximo e continuámos a partilhar ideias, sonhos e desejos...

    O último ano foi aquele em que o nosso contacto se revelou bastante menor, até porque as suas limitações se foram agravando cada e cada vez mais. No entanto, de vez em quando, lá íamos trocando algumas mensagens. É por isso que, na sexta feira passada, fiquei quase incrédulo, quando constatei que o percurso dele neste planeta tinha terminado. E, agora, lamento profundamente que nunca lhe tenha chegado a mostrar Rattlesnake, o meu primeiro western, que concretizei finalmente ao fim de muitos anos de actividade. Sei que esse seria um tema de várias boas conversas e que ele, como fez ao longo dos anos, me poderia dar alguns conselhos, pois nesse campo a sua experiência era muito mais vasta do que a minha. É que, apesar do José Pires, na sua prolífera carreira, ter trabalhado em várias temáticas, era de facto no western, do qual era um profundo conhecedor, onde se sentia mais à vontade. Mas, enfim, a vida é o que é...

    Resta-me agora apenas dizer que com a partida do meu amigo Pires, sinto-me mais uma vez um pouco órfão, pois é mais um valoroso amigo que vai cavalgar para lá da linha do horizonte. Ficam no entanto as boas memórias dos momentos que passámos juntos e que não foram poucos e a sua magnífica arte com a qual, tenho a certeza, ganhou o seu quinhão de eternidade...

Eu e o José Pires em Angoulême

Carlos Rico, eu, José Pires e Carlos Baptista Mendes em Viseu, em 2018

Uma prancha de prova de Tex Willer que José Pires gentilmente me ofereceu

Alguns estudos de rosto patentes na exposição dedicada aos cinquenta anos de carreira de José Pires